Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Medo do Escuro ou Reflexões sobre "O Estranho"


O medo do escuro é um assunto que sempre me fascinou, tanto que escrevi um conto a cerca do assunto "A Cidade da Noite" sobre duas irmãs que durante uma viagem seu carro quebra em uma cidade deserta, logo elas percebem que, com exceção de alguns moradores, todos da cidade estão mortos um a um os sobreviventes vão desaparecendo, sendo tragados pelo escuro. Meu objetivo não é comentar sobre meu conto Que pode ser lido no Link anexo a este post. Mas sim do medo do escuro em si.
Lembro de meus pais tentando tranquilizar meu medo afirmando que a noite é igual ao dia e as trevas não habitam nada que já não exista sob a luz. Se não há nada no escuro significa que ele abriga nossos mais terríveis medos a final ele é um campo de projeção.
Existem primeiras vezes que geram arrependimento pois nunca voltaremos a ter a mesma sensação, foi assim quando li "O Estranho", um artigo subestimado do Freud. Sou suspeito para falar pois gosto de produções tétricas e terroríficas assim como da obra freudiana. Seus textos dialogam com o leitor. É correto afirmar que nós não lemos a obra de Freud, mas sim dialogamos com o próprio Freud. O artigo não só explica o medo mas aquela sensação de "algo inquietante" a nossa volta nem sempre de maneira definida, a final o próprio medo não o é.
O medo, a inquietação e/ou o sinistro são frutos do recalcado: desejos sexuais voltados para figura materna, ódio assassino voltado para figura paterna, angústia de castração, culpa, fantasias arcaicas, a atuação da pulsão de morte que visa o retorno ao inorgânico dentre outras. A explicação do por que estes rastros emocionais surgem em forma terrorífica é sublime - Freud recorre a crenças primitivas de épocas remotas onde os humanos acreditavam viver em um mundo povoado por espíritos, os objetos possuíam vida e a magia era algo corriqueiro. Tais crenças seriam alimentadas pelo pensamento onipotente e pela super valorização narcizica do indivíduo perdurando por eras até ficarem gravados em nosso inconsciente. Retornando ao medo do escuro: sabemos que tudo aquilo o que foi recalcado visa retornar a consciência assim os conteúdos inconcebíveis valem-se desta herança para emergirem.
Talvez o que mais tenha chamado minha atenção no artigo foi seu nome "O Estranho" ou no original "Das Unheimliche". Tal a importância do nome que Freud detalha o termo e suas conotações em diversos idiomas a partir de um dicionário de fraseologia, constatando que todos os idiomas ali presentes possuem um nome para esta inquietação.
O representante da língua portuguesa "estranho" é muito bom significando sinistro ou inquietante, mas sua conotação deixa a desejar ao comparar-se com "Das Unheimliche" subentendendo-se apenas como "algo" de proveniência indeterminada.
Vejamos a construção do substantivo Das Unheimliche, diga-se de passagem é fascinante, ele deriva-se de Heimlich que significa familiar ou conhecido, ao receber o prefixo "Un" ele torna-se uma negativa. O assustador, macabro ou sinistro nega o que que é familiar e conhecido. Suas conotações são ainda mais amplas: nos deixa indefesos; não se sabe quando chega; de proveniência indeterminada; se arma em torno de nós; proximidade e insidiosa/súbito. E não são estas as sensações que temos ao assistir um bom filme de terror ou ao lermos um conto de Edgar Allan Poe?
Referências:
Freud, S. (1919) O Estranho. Edição eletrônica. 2002.
Hanns, L. Dicionário Comentado do Alemão de Freud, Imago. 1996.

Um comentário:

  1. Em qualquer filme busco essa dose de abstração que me captura para o invisível, ao que não é dito, experimentação única com o despertar de sensações novas. A arte sensorial me seduz mais que a cerebral e esse despertar pode vir com a sensação de estranhamento face nossa própria rotina. O que nos cerca e nos é familiar não resiste ao olhar detalhado, essa sensação de estranhamento é sempre libertária.

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