Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma Espiadela Embaixo da Saia da Sociedade II: A Confecção de um Herói ou "Sobre Lula, O Filho do Brasil"


"Privar um povo do Homem de quem se orgulha como o maior de seus filhos não é algo a ser alegre ou descuidadamente empreendido...". São com estas palavras que Freud inicia "Moisés, um Egípcio", o primeiro dos três Artigos componentes de "Moisés e o Monoteísmo". Cito esta frase em caráter ilustrativo deste segundo Post destinado a espiar os falsos mitos sociais.
Já é notícia antiga a intenção de Fábio Barreto em levar a vida do Primeiro Presidente analfabeto da História ao Cinema. No início das filmagens de "Lula, O Filho do Brasil", o diretor narra uma cena onde o pequeno Lula aprende a andar para não ser picado por um escorpião - ainda com dez dedos nas mãos, o pequeno Lula estava caído no chão atento à aproximação de um escorpião. O animal peçonhento aproxima-se dele. Momento antes de ser picado Lula aprende a andar e foge do escorpião. Esta cena em particular resume o espírito do Filme que tenciona um relato heróico do Presidente Lula - que se não fosse seu caráter dúbio e idéias alienistas seria realmente um Herói Nacional. Mas qual Herói é perfeito? Todas as figuras transformadas em heróis foram idealizadas, apresentadas como pessoas nobres cujo caráter e determinação estavam a cima da média. Em suma nossa sociedade necessita de ídolos: a tradição heróica é tão antiga quanto a História da Igreja - ou alguém discorda que os Santos possuem características de Herói?
Um resumo bem resumido do filme: Classificado pelo diretor como "um drama épico sobre uma certa Família Silva", o filme, orçado em R$ 12 milhões, retrata a vida do Presidente e de seus familiares, do nascimento de Lula, em 1945, até a morte da mãe, Eurídice Ferreira de Melo, a Dona Lindu, em 1980.
As primeiras gravações foram feitas em Caetés (a 250 km de Recife, PE), ex-distrito de Garanhuns, terra natal do Presidente. As cenas iniciais mostram Dona Lindu, interpretada pela global Glória Pires, dando à luz o futuro Presidente.
Luiz Inácio cresce em meio à seca, e a saga dos Silva no Agreste só termina quando Lula (sete anos) embarca com a mãe e seis irmãos em um pau-de-arara, com destino a São Paulo. A cena da saída, gravada sob o sol forte do meio-dia, foi repetida 12 vezes até ser aprovada.
O filme vai mostrar ainda a trajetória operária de Lula e também seus dois casamentos, com Lurdes e Marisa Letícia. Para o papel da primeira mulher foi escolhida a filha de Glória, Cléo Pires. Já a atual Primeira-Dama do País será interpretada pela atriz Juliana Baroni, ex-paquita Catuxa Jujuba.
Como cinéfilo, sei que o Fábio Barreto nunca foi grande coisa, ele é o irmão menos talentoso de um Diretor fraco e superestimado. Responsável por "Bela Donna" e "O Quatrilho", Fábio deveria ser processado por todos aqueles que assistiram seus filmes e ser obrigado a pagar indenização. Seu último trabalho foi a série da Rede TV! "Donas de Casa Desesperadas", e agora ele vem com "um drama épico sobre uma certa Família Silva". Posições políticas a parte, o resumo do filme abrange todos os clichês possíveis e inimagináveis do Cinema. Só faltou uma bomba prestes a destruir uma Conferência de Paz e um dinossauro atacando as pessoas. Deixo bem claro, não estou depreciando sua ideologia ou posição política - cada um tem a sua e eu respeito (apenas como curiosidade, a maioria dos meus amigos são petistas, e alguns deles devem estar bravos comigo agora) - meu comentário é a respeito do objetivo de seu filme, evidentemente uma produção ideológica; e aqueles que gostam do Lula devem concordar comigo, a vida do Presidente merecia um Diretor melhor.
Em 1909, Otto Rank escreveu Der Mythus von der Geburt des Helden - o título foi uma sugestão do próprio Freud que o cita em "Moisés e o Monoteísmo", demonstrando que quase todas as civilizações proeminentes começaram, em fase precoce, a glorificar seus Heróis, Príncipes e Reis. Existe uma fórmula para criar um Herói, basta seguir a receita dada por Otto Rank para termos o defensor dos fracos e oprimidos, cujos companheiros escondem notas de dólar na cueca:
1) O Herói é filho de pais muito aristocráticos; geralmente, filho de um Rei;
2) Sua concepção é precedida por dificuldades, tal como a abstinência ou a esterilidade prolongada; ou seus pais têm de ter relações em segredo, por causa de proibições ou obstáculos externos. Durante a gravidez, ou mesmo antes, há uma profecia (sob a forma de sonho ou oráculo) que alerta contra seu nascimento, que geralmente ameaça perigo para o pai;
3) Como resultado disso, a criança recém-nascida é condenada à morte ou ao abandono, geralmente por ordem do pai ou de alguém que o representa; via de regra é abandonada às águas, num cesto;
4) Posteriormente ele é salvo por animais ou por gente humilde (tais como pastores) e amamentado por uma fêmea de animal ou por uma mulher humilde. Após ter crescido, redescobre seus pais aristocráticos, depois de experiências altamente variadas, por um lado vinga-se do pai, por outro lado é reconhecido, alcançando grandeza e fama.
Se pegarmos como referência heróis gregos, a maioria enquadra-se nesta descrição. Nos heróis de "carne-e-osso", tais etapas sofrem modificações. Pegando dois exemplos:
O atual Presidente Americano Barack Obama vem de uma família pobre, o que indica dificuldades em criar uma criança. Seu pai saiu de casa voltando para a África, deixando sua mãe sozinha (com ele e seus irmãos) - mãe que o criou com muito amor até que este consegue entrar na faculdade, formar-se em Direito e lutar pelas pessoas menos afortunadas, onde iniciou sua carreira política. Com o passar dos anos, Obama tornou-se Presidente dos EUA. Vejamos, aqui nós temos os seguintes critérios: 02 - uma concepção difícil, devido às condições financeiras de sua família; 03 - é abandono por parte do pai; 04 - vive em meio à camada mais pobre da população, ajudando-os. Posteriormente torna-se o primeiro Presidente negro dos EUA, alcançando grandeza e fama. Aqui nos falta o primeiro item, pois Obama vem de uma família pobre, esta idéia pode ser interpretada - apesar de vir de uma família pobre, Obama é americano, autodenominado País mais rico do mundo (embora sua dívida externa seja igualmente grandiosa), sendo eleito pelos negros e hispânicos, minoria oprimida nos EUA, para defendê-los da elite. Assim temos os 4 requisitos para a criação de um Herói.
Outro Herói fabricado e mundialmente conhecido é Che Guevara: Filho de médicos (critério 01), ele decide viajar pela América Latina onde se defronta com a desigualdade social - neste ponto podemos interpretar seu contato com a pobreza como a criação de Che Guevara (foi neste momento que ele decidiu pelos seus ideais) - critérios 03 (no caso foi ele quem abandonou o lar, mas na prática o resultado é o mesmo) e 04. Não tenho nenhum dado sobre sua concepção ou infância, mas sua filiação ao Movimento Revolucionário Cubano pode ser interpretada como uma vingança contra seus pais aristocratas (critério 04). Claro que sua morte na Bolívia contribui para a criação de uma Lenda, a qual Cuba e o Movimento Comunista sustentam até os dias de hoje.
Existem muitos outros exemplos, cada País tem seu Herói. Podemos adaptar os critérios da criação de um Herói desta forma:
1) O Herói pode ter nascido em um País rico; ou ser natural de uma localidade humilde, ter migrado para um País/Cidade representante de riquezas;
2) Seu nascimento pode vir em meio a dificuldades financeiras, e sua infância ser difícil e repleta de obstáculos a serem superados, os quais ameaçam seu futuro;
3) O abandono pode ser representado pela morte de um dos membros da família ou o abandono de um dos pais;
4) Se ele vier de uma família pobre, sua ascensão a Herói é uma "vingança" contra uma parte da Sociedade que o rejeitou - a ele ou parte de sua família -; caso venha de uma família de posses, o Herói junta-se a movimentos populares, indo contra os ideais pregados por sua família. Em ambos os casos o Herói vinga-se, em nome da população humilde, da parte aristocrática da Sociedade.
"Um drama épico sobre uma certa Família Silva" enquadra-se em todos os critérios (não apenas o filme, como discursos e idéias "lulísticos"). Vejamos: "Lula, O Filho do Brasil" conta a infância pobre de Lula com seis irmãos, a própria "cena do escorpião" torna explícita sua infância sofrida e os obstáculos superados, assim como a viajem para São Paulo em um pau-de-arara correspondem aos itens 01 e 02. O filme terminará com a morte de sua mãe, aumentando o drama, objetivando a compaixão do público e representando o terceiro item das características de um Herói. Por fim, temos o quarto item: a vingança social está presente em frases de efeito, como esta publicada na Revista Veja de 11/02/2009 – "Os ricos precisam pouco da gente. É coletar o lixo que tá bom". Seu passado como Líder Sindical sugere uma identificação com movimentos sociais; assim como sua origem em uma família humilde - atributos que o próprio Lula usa para rebater críticas a sua postura (quando criticado, ele responde que os mesmos têm inveja do nordestino que ascendeu ao mais alto cargo da política brasileira) -, o que não seria tão mal, se Lula não fizesse apologia à ignorância, ao afirmar com gozo, o fato de seu primeiro diploma ter sido o de Presidente, ou sorrir ao comentar que chegou ao patamar de Líder sem estudo. Outro ponto negativo é seu sistema assistencialista, distribuindo esmola à população sofrida. Quando o oprimido transmutou-se em opressor? Esta pergunta o filme de Fábio Barreto não irá responder.
Concluindo: para escrever este Post recorri ao livro "O País dos Petralhas", de Reinaldo Azevedo, onde pude comprovar minhas idéias em um termo do glossário criado pelo jornalista para seus termos inventivos e sarcásticos. "Babalorixá e Banânia" - Babalorixá é um Chefe Espiritual do Candomblé e Banânia é uma referência ao Brasil usado como alcunha para Lula, quando este "assume certa vocação mística ou missionária" (como o Herói que nos guiará para a terra prometida). Eu já vi este Filme e ele não é bom. Mas esta frase também é um clichê.
Referências:
Freud, S. (1939[1934-38]) Moisés e o Monoteísmo. Edição eletrônica. 2002.
Azevedo, R. O País dos Petralhas. Record.2008.
Revista Veja edição 2099 editada em 11/02/2009

Um comentário:

  1. Vou ser sincera... Não vou ler td isso, pq é muito grande e eu estou com uma dor de cabeça f***, mas prometo que amanhã eu leio!
    Já te add nos meus favoritos. ;)
    Sucesso com blog, e por favor diminua seus textos... kkkkkkkkkkkkkkkk
    BjOs^^

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