Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Uma espiadela embaixo da saia da sociedade X: Uma farsa que se faz: O caso do túnel e do garoto morto


Estava chegando em casa, este simples fato é muito mais complexo do que aparenta ser, até então era um analista, pensava psicanaliticamente, o caminho para casa serve para esta conversão deixo o psicólogo de lado, viro o eu cotidiano, o Diego, me preocupo com coisas simples.
Nesta transição algo chama minha atenção, era exibida uma reportagem sobre Rafael, o filho morto de Cissa Guimarães, atropelado em um túnel interditado, durante um racha. Porém a matéria não era triste, tão pouco de caráter investigativo. A atriz comemorava, gritava o nome do filho morto perante as câmeras, de braços abertos, cena digna de um melodrama.
Pronto, não consegui desviar a atenção, consegui deixar de ser o analista. Aquela cena, digna de uma página de "Caras" destoava da história. A atriz comemorava o fato de três grafites serem preservados dentro do túnel: o rosto de Rafael, um coração feito pela própria Ciça e o apelido "Rafa" - a atriz comemorava, os repórteres se agrupam para registrar o melhor ângulo da demorada cena.
A atriz não é a única a representar. Os grafites serão emoldurados e iluminados; o tunel irá ganhar azulejos com o rosto de Rafael, ainda estuda-se mudar o nome do túnel e batiza-lo de Rafael. Após a reportagem Cissa lamenta seu filho não voltar para casa, mas se vangloreia pelos outros garotos que poderão andar de skate pelo túnel - estes, os beneficiados estavam agrupados, tímidos e nitidamente desconfortáveis. Benefício deles?
Após a atuação o agradecimento pelo Oscar, dedicados aos adolescentes do Rio de Janeiro com gosto parecido ao de Rafael. Cissa segura o choro, a dor é verdadeira, o luto permanece, a falta irremediável, mas existe algo de teatral ao ver a atriz depositar flores no túnel, os diretores são os fotógrafos e o público emocionado aplaude. A reportagem termina, podemos voltar para nossas vidas, cada um de nós representa sua própria farsa, a farsa do cotidiano.

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