Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

quinta-feira, 3 de maio de 2012

E o julgamento do mensalão?


Agora vai! Ou agora vai? Acredito que o mais correto é agora não vai! Com o complemento "infelizmente ainda não poderemos provar nossa inocência" quando na verdade querem dizer "não pode ir" ou quem sabe "aguenta mais um pouco para ir e vamos ver quem continua fiel a nós... cumpanhero". Ou nas palavras de Lula "As pessoas que erraram, a gente não tem que execra-las. Errar é humano" (13/02/2006).

Antes de prosseguir seria importante relembrar o que foi o mensalão:

Em Maio de 2005 a revista Veja publicou um vídeo onde Maurício Marinho, então diretor dos correios, recebia R$ 3.000 de propina de um empresário interessado em uma licitação estatal. Marinho diz que a nomeação fica a cargo do PTB, para tanto precisa arrecadar mais dinheiro de de empresas envolvidas com o correio.

Tentando aliviar sua barra e desviar atenção da mídia o presidente do PTB, Roberto Jefferson, declarou à folha de São Paulo que Lula repassava uma mesada aos parlamentares dos partidos aliados garantindo seu apoio e fidelidade. O esquema seria coordenado por José Dirceu, ministro da Casa Civil e principal dirigente do PT.

A estratégia deu certo, Jefferson virou uma espécie de herói popular por ter revelado a corrupção no país e seguiu atacando Zé Dirceu. Em 16 de junho o então ministro entrega sua carda de demissão a Lula.

Após as denúncias foi instalada uma CPI, passados 10 meses de investigação o marqueteiro Duda Mendonça confessou que recebeu dinheiro do caixa 2 do PT (para quem não sabe caixa 2 é dinheiro sujo, que ninguém sabe de onde veio e não se paga imposto sobre ele). O relatório final pediu o indiciamento de mais de 100 pessoas e a casacão de 18 parlamentares.

Apenas três parlamentares foram caçados: José Dirceu (PT); Roberto Fefferson (PDT) e Pedro Corrêa (PP) que perderam os direitos políticos por oito anos. Outros quatro parlamentares renunciaram e os outros 11 foram inocentados. O então procurador da república Antonio Fernando de Souza apresentou denúncia contra 40 pessoas ao supremo tribunal federal; o ministro Joaquim Barbosa aceitou a denúncia em agosto de 2007. Desde então o processo está sob análise do ministro revisor Ricardo Lewandowski. A principal dificuldade em condenar os mensaleiros é justamente seu nome. Como provar que os parlamentares recebiam uma propina mensal, conforme acusação de Roberto Jefferson.

As origens ocultas
O mensalão foi visto por todos, as confissões, os ataques políticos e pessoais, alguns caíram e outros se fortaleceram. Mas como começou? A resposta é simples: ambição e sede pelo poder.

O início de tudo encontra-se no acordo político PTB-PT tudo estava bem entre José Dirceu e Roberto Jefferson, até que o primeiro ficou preocupado com o poder do segundo, tentando manter o monopólio político do governo. Segundo denúncias feitas por José Nêumane Pinto em seu livro "O que sei de Lula" Dirceu facilitou a primeira denúncia sobre a "compra" de licitações junto aos correios.

O que espanta é a ingenuidade de Zé Dirceu, ele realmente acreditou que Jefferson aceitaria a denúncia calado? Como político experiente que é Jefferson revelou a rede de corrupção do governo petista e o feitiço virou contra o feiticeiro, quem caiu foi Dirceu, aliás caiu apenas na cena pública, pois continua "muito bem obrigado" no comando do PT tendo voz ativa no governo e nas decisões do partido.

Quem tem boa memória sabe que num primeiro momento Jefferson disse que Lula estava envolvido, em um segundo momento ele voltou atrás, fica escrito nas entrelinhas: a rixa era entre Dirceu e Jefferson e não entre Lula e Jefferson.

Uma oposição imcompetente
Em meio a todo este escândalo o que podemos esperar da oposição? De um partido que visa voltar ao poder e tropeça em uma oportunidade de ouro? Podemos esperar qualquer coisa, menos que fiquem de braços cruzados. Foi isto que o PSDB e o DEM (então PFL) fizeram. Nada!

Collor sofreu um processo de impeachment por muito menos, durante a ditadura militar a oposição conseguiu derrubar um governo que os reprimia violentamente, mas o PSDB optou por não fazer nada.

Então chegaram as eleições e os tucanos tinham dois candidatos um que empatava com Lula e outro que perdia no primeiro turno, eles escolhem aquele que perdia no primeiro turno. Motivo? Desejo de poder e arrogância José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves iniciaram uma verdadeira guerra Alckmin e Serra querendo ser presidente e Aécio esperando que um deles perca e o outro fique queimado para sair candidato na próxima eleição.

O resultado todos nós sabemos, porém é importante ler nas entrelinhas: Serra e Alckmin ainda estão em guerra, a debandada para o PSD de ex-aliados de Serra, por outro lado o governador de São Paulo parece estar em sintonia com Aécio, os dois tem um acordo de apoio. Aécio também conta com o apoio de FHC. O último empecilho era Serra, que deve se contentar com a prefeitura de São Paulo, um ponto estratégico para se chegar ao planalto central. Veremos se a oposição aprendeu com seus erros.


Como o PT está se preparando para o julgamento
Os petistas estão unidos: políticos e eleitores, militantes e lulistas tem sempre a mesma reação quanto ao mensalão "isso é invenção da oposição e da imprensa"... sua primeira reação é a vitimização - faça o teste e pergunte a um petista ele irá enumerar uma lista de meios de comunicação "direitistas, pequenos burgueses e perseguidores do PT" que atacam seu partido tais como "Veja", "O Estado de São Paulo", "Folha de São Paulo" e "Rede Globo" ao mesmo tempo dirão para você ler a "Carta Capital" e assistir a "Rede Record".

Ao mesmo tempo as legítimas denúncias envolvendo Carlos Cachoeira estão sendo usadas para desacreditar a oposição: Demóstenes Torres (Democratas) foi flagrado defendendo interesses comerciais de Cachoeira e o governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB) tinha vários assessores ligados a Cachoeira, inclusive sua chefe de gabinete que foi afastada. Como sempre na política onde tem fumaça tem fogo.

Temos ai um embate de interesses dentro do governo Lula é a favor da CPI do Cachoeira pois sabe que esta é sua melhor arma, já Dilma é contra pois ela sabe que uma CPI pode desestabilizar seu governo pois quanto mais se investigar mais nomes irão surgir. Já começou o ex-delegado da polícia federal e atual deputado Protógenes Queiroz (PCdoB) apareceu junto aos envolvidos com Cachoeira os orientando a manter o silêncio e como agir no depoimento a polícia federal; enquanto o governador do Distrito Federal foi citado em dezenas de telefonemas envolvendo seu nome em negociações com Cachoeira e até o nome de Zé Dirceu já foi dito nas gravações.

A CPI de Cachoeira demonstra que todos os partidos tem corruptos, e a tese está certo, sendo assim o Mensalão não seria inédito, ou seja deixaria de ser um escândalo da corrupção para ser mais um evento. Dilma se opõe pois ela não sabe até onde vai esta CPI e quem estará envolvido. A estratégia de Lula é arriscada, mas pode dar certo.

Finalmente nós temos uma atitude digna da oposição: O PSDB assumiu a vanguarda da CPI, em um contra-ataque os tucanos querem mostrar que são diferentes, o DEM afastou Demóstenes o mais rápido possível como se dissesse "aqui é diferente" o que a oposição não pode deixar é que a CPI do Cachoeira supere o julgamento do mensalão, que corre o risco de prescrição ou seja o mensalão pode demorar tanto para ser julgado que mesmo considerados culpados os acusados não seriam punidos.

Mesmo assim a oposição faz muito pouco (ou quase nada) e pode deixar mais uma vez que a oportunidade de ouro escape. Ou quem sabe o PSDB está esperando que o Câncer de Lula o impeça de falar em defesa do PT e quem sabe o partido da estrela vermelha se enforque sozinho. E quem sabe Papai Noel exista.

"Se cometeu um crime eleitoral, eu e qualquer outro cidadão deste país temos que pagar pelo crime que cometemos (Lula em 18/10/06). Pela primeira vez concordo com ele.

Referência para esta coluna:

Livro: Nunca Antes na História deste País
Autor: Marcelo Tas
Editora: Panda Books









Livro: O que sei de Lula
Autor: José Nêumane Pinto
Editora TopBooks









Livro: Lula é Minha Anta
Autor: Diogo Mainardi
Editora: Record









Revista Veja
Edição 2265 - ano 45 no. 16
18 de Abril de 2012

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