Oito Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

sábado, 8 de junho de 2013

O Cinema da Boca do Lixo


Lá pelas décadas de 20 e 30, quando as produtoras de cinema descobriram o Brasil, a profissão de ator era confundida com a de prostitutas. Localizado no atual centro velho de São Paulo, a boca deu início ao nosso cinema.

Atualmente os filmes nacionais são elitistas e de pensamento higienista, rejeitando toda sexualidade, malícia e vocabulário popular, tornando os filmes em episódios de seriados ou novelas fajutas.

Os atuais produtores e público se esqueceram de que nosso cinema nasceu da boca do lixo. Entre as décadas de 80 e 90, quando a produção nacional quase se extinguiu os produtores voltaram para a boca do lixo, e ali, na companhia de traficantes, prostitutas e travestis, que juntavam dinheiro para sua operação, o cinema nacional se sustentou.

Por décadas o cinema nacional foi criticado por trazer nudez e palavrões, mas estes intelectuais de segunda se esquecem que nosso cinema nasceu na cracolândia, a higienização promovida por novos diretores/público estão matando a produção nacional, sua história e colocando alguma outra coisa no lugar. Uma coisa chata, uma coisa moralista, que renega o espírito brasileiro da boa malandragem. Vida longa a Boca do Lixo.

O objetivo deste tópico é resgatar a memória da boca, com quatro sugestões de filmes, facilmente encontrados (basta dar um google) injustamente confundidos com filmes pornográficos o cinema da boca recrutava atores nas ruas, inseria cenas de sexo explícito em suas produções. Mas antes de tudo era cinema, ou nas palavras do diretor espanhol Jesus Franco “Porno também é cinema”.

 

Oh Rebuceteio (1984)
 
O título já diz tudo certo? Uma junção das palavras “rebu” (grande confusão) e buceta (preciso explicar?) o filme faz paródia de “Oh Calcutta”. Exibido algumas vezes no Canal Brasil a obra trás como história de um diretor que procura atores e atrizes para sua nova peça.
 
O tal rebuceteio ocorre durante os ensaios, os bastidores do teatro se alternam com uma peça psicodélica em um dos primeiros filmes nacionais a incluírem cenas de sexo explícito, diferente das pornochanchadas onde o sexo era simulado.
Oh Rebuceteio fez fama internacional, se aliando a outras produções que incluíram cenas de sexo explícito como “o Império dos Sentidos” e “Calígula”, diferente do Japão que se orgulha de ter produzido um marco do cinema nós brasileiros escondemos o rebuceteio.
 
O Analista de Taras Deliciosas (1984)
 
Uma das especialidades da Boca do Lixo era pegar um filme ou seriado americano e montar uma paródia, no caso o filme satirisa “A Ilha da fantasia” onde o Dr. Moss realiza as taras de seus convidados.
Algumas diferenças básicas: na ilha da fantasia os clientes vinham de avião, aqui eles chegam de ônibus, no seriado americano a ilha era um lugar paradisíaco, no filme nacional o resort ficava no interior do nordeste.
No demais todos os elementos da paródia estavam lá: o Dr. Moss e seu anão usavam ternos brancos, assim como toda a equipe, que dedicava seu final de semana a realizar a fantasia daqueles que vizitam a clínica do amor Moss.
 
 
 
 
 
48 Horas de Sexo Alucinante (1987)
 Sexo alucinante? Tem um motivo muito simples para este título, o diretor do filme chama-se José Mojica Marins, o nosso Zé do Caixão, era mais um cineasta que se instalou na boca durante os anos 60 e 70. Mojica foi perseguido pela censura e nunca recebeu o valor que merecia, porém seu amor pelo cinema era maior. Para conseguir financiamento para produzir seus filmes de terror Mojica alternava o cinema erótico com o terrorífico.
Mojica sente vergonha de seus filmes erótico? Muito pelo contrário eles lhe deram sustento e experiência cinematográfica, além de bancarem sua grande paixão.
Claro que Mojica não se contentaria em fazer um simples filme erótico, ele decidiu fazer o filme mais sujo e tosco de todos os tempos, quem conhece o tom visceral do cineasta não se surpreende, revelando que o talento não tem gênero. A história? Mojica é contratada por uma psiquiatra para fazer um filme de sexo com fins científicos e explorar os efeitos da sexualidade na psique humana. Durante as filmagens, os atores e Mojica percebem que eles estão lá para cumprir um fetiche sexo pervertido do psiquiatra: ser penetrado por um touro quando ela está dentro de uma vaca de madeira.
 
 
A Virgem e o Fotógrafo (1991)
 
O ano era 1991, Fernando Collor arruinava a economia e praticamente destruía o cinema nacional ao retirar todo o incentivo à cultura, mais uma vez coube a Boca do Lixo carregar o cinema brasileiro nas costas.
 
Um fotógrafo convida três modelos para um final de semana em sua casa para um final de semana com muito sexo e fotografias, o enredo flerta com o limite entre erotismo e arte. Uma dessas modelos é virgem, dai o título.
 
O flerte entre erotismo e arte fica explícito na promoção da obra, que prometia mostrar uma mulher sendo desvirginada ao som de Mozart. Carol Miranda não foi a primeira, com produção de filme A e trilha sonora belíssima a sexualidade é desvendada sem moralismo, mas com leve excesso de cenas de sexo.
 
 
 

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