terça-feira, 12 de abril de 2016

Medaka Box: A Metalinguagem no Anime/Mangá

Kurokami Medaka, ou simplesmente Medaka, é uma das personagens mais criativas da Shonen Jump, o mais correto seria dizer que ela é uma personagem “anti-Shonem Jump” – a mais famosa das editoras japonesas, que possui em seu plantel nomes como Goku; Seiya; Yusuke, Naruto e outros todos construídos dentro de uma fórmula, enquanto que “Medaka Box” mangá protagonizada por nossa estrela é um exercício de metalinguagem com a estrutura da editora.
Começando pelo começo o mundo em que Medaka vive admite a existência de pessoas que nasceram com alguma habilidade extraordinária explicada apenas por sua existência. Algo como eles existem e pronto! Essas pessoas são chamadas de “anormais” Medaka é uma delas, uma garota que dedica sua vida a ajudar os outros. Uma vez dentro do colegial foi eleita presidente do conselho estudantil com 98% de aprovação.
Como plataforma eleitoral Medaka prometeu uma caixa onde atenderia pedidos de qualquer pessoa, para cada realização ela coloca uma flor na sala do conselho estudantil. É nesse clima cômico de “fatia de vida” que o mangá/anime começa. Bom até a página dois. Existem 2% de alunos que não gostam dela.
A escola é dividia em séries escolares, cala série possui treze salas onde os alunos são separados de acordo com suas habilidades inatas dos mais normais até os anormais concentrados na sala 13 onde Medaka estuda. Adivinhou quem não votou nela? Essa mesma escola possui um projeto que visa estudar os poderes dos anormais, não vou entregar o ouro, mas Medaka e seus amigos posicionam-se contra essa iniciativa dando origem a uma série de combates uns mais grandiosos e violentos que os outros.
Você deve estar pensando, legal, mas todos os mangás da Jump são assim. A metalinguagem se faz na Medaka e sua habilidade que eleva o absurdo a extremos e chuta a lógica para longe. Qualquer mangá/anime de ação possui um herói que por algum desígnio do destino vira herói e vai ficando cada vez mais forte ao ponto de esmigalhar as leis da física. Temos personagens viajando na velocidade da luz, voando, soltando golpes de energia,
Medaka no modo deusa da guerra
ressuscitando, etc... Medaka leva a coisa a outro nível.
Entre as personagens temos uma garota que pode prender a respiração por um mês, um rapaz capaz de provocar terremotos com um pisão e outro que controla as pessoas com a vontade, nada comparado a Medaka cuja habilidade inata The End consiste em aprender instantaneamente qualquer habilidade que veja ou ouça falar e melhora-la 120% teoricamente ela pode replicar qualquer habilidade: jogar basebol, botar ovo, voar, disparar raios de calor com os olhos, tocar violão, ser simpática, oratória, aprender matemática, etc....
Um dos clichês dos produtos da Jump é quando o herói está encurralado ele tira um poder desconhecido da manga surpreendendo a ele, seus aliados e ao vilão. Nós, o público, aceitamos, uma vez que esperamos por essa reviravolta. Medaka Box perverte essa lógica na mesma situação, onde ela está encurrelada pelo vilão Medaka desenvolve um novo poder, ela e seus amigos aceitam a situação com tranquilidade jogando o estranhamento ao público. Entenderam a jogada? O manga/anime escancara todos os clichês mostrando ao público como eles são feitos e como funcionam. É um mangá/anime que explica como são feitos mangas/animes sem odidatismo e de maneira despercebida. Metalinguagem!
No mangá Medaka defrontou-se com adversários poderosos absorvendo suas habilidades: leitura de pensamento, descargas de raios elétricos, ocultação de armas (independentemente do tamanho), manipular realidade, apagar alguém ou alguma coisa da existência, regeneração instantânea, infringir doenças, reabrir feridas mentais ou físicas que estejam cicatrizadas e ressuscitar dos mortos – lembrando que todas essas habilidades são realizadas 120% melhor que os donos originais.
Nenhuma das habilidades acima é exatamente nova, já vimos em outras produções da mesma editora Medaka reúne todas e as exagera brincando com o absurdo aceito instantaneamente e sem questionamento pelos fãs da revista. Mais uma vez mostrando como qualquer ideia pode ser aceita com naturalidade dependendo de seu contexto. “Medaka Box” é puro pensamento crítico.
Medaka copiou todas as habilidades de Ajimu, a grande vilã da história, uma entidade cósmica que transcende a criação do Universo possuindo 12 quartilhões 850 trilhões, 51 bilhões, 967 milhões, 633 mil e 866 poderes diferentes. Deu para entender o nível do absurdo?
Ajimu
Como se não bastasse a moça é extremamente ingênua, incapaz de desconfiar ou guardar rancor. Mais uma vez são características de qualquer protagonista de um mangá/anime da Jump novamente elevados ao absurdo, apenas para nos mostrar no que acreditamos e brincar com nossa percepção de realidade, em nenhum momento a obra se leva a sério e não serei eu a levar Medaka a sério.
A própria estrutura narrativa é icônica a narrativa tradicional do manga consiste em imagens passando a impressão de movimento e falas espalhadas, já o manga de Medaka traz longos e profundos diálogos amontoados em um curto espaço com imagens paradas. O mesmo acontece no anime com falas se amontoando cuspidas como uma metralhadora pelos dubladores. Se pensarmos que a Shonem Jump é das editoras a mais comercial, portanto a mais metodológica e a que menos se arrisca “Medaka Box” fica ainda mais genial.
Quando o anime foi produzido e esteve prestes a estrear Ajimu falou diretamente ao leitor, não em um momento pós créditos, mas no final do capítulo, o mesmo acontece no último episódio do anime, uma técnica chamada “quebra da quarta parede” – na teoria do teatro (vale para cinema) existem três barreiras que dimensionam a trama estruturadas pela cena as laterais e o fundo. A quarta parede é a tela que separa o espectador da trama. Quando a personagem fala com você ela quebra a quarta parede fundindo realidades o objetivo é trazer o público para dentro da trama e envolve-lo com a história – Mais uma vez “Medaka Box” inova deturpando essa técnica no discurso de Ajimu, ao invés de trazer o público ela o fasta, como se
dissesse: “você está vendo um anime, não acredite”.
Regularmente a Shonen Jump faz enquetes sobre as obras preferidas de seus leitores “Medaka Box” sempre amargou as últimas posições, ao tempo que seu autor Nisio Isin (escritor renomado no Japão) sempre teve carta branca e em nenhum momento foi pressionado pela direção da revista. Sua ousadia e criatividade não foi entendido por muitos leitores da Jump (em geral adolescentes) enquanto o público mais maduro entendeu e acompanhou Medaka, uma leitura para poucos com o passar dos anos obras da moda vão caindo no esquecimento enquanto Medaka fica cada vez mais famosa, assumindo status de cult. Citando Nietzsche “alguns homens nascem póstumos”.
Os próximos parágrafos contem spoilers, portanto se não quiser saber pule para a conclusão: o último episódio do anime simplesmente não existe, ele acaba de forma aberta no penúltimo episódio (a produtora do anime, Gainax, é muito boa nisso): Medaka volta da batalha quando encontra seus aliados e inimigos todos mortos. Eis que surge Kumagawa e fim. O último episódio ignora completamente o anime e parte para uma história solo desse simpático psicopata capaz de desfazer elementos da realidade apenas negando sua existência, não antes da introdução de Ajimu falando diretamente ao público, quebrando a quarta parede no começo do episódio.
Existem diferentes formas de entender o final. Uma delas passa pelo anime não ter uma terceira temporada, então termina em aberto. Podemos supor que Medaka enfrentou Kumagawa, aprendeu sua capacidade de negar a realidade e negou a morte de seus companheiros trazendo-os de volta a vida. Considero essa uma interpretação bastante preguiçosa, porém possível. A Gainax já sabia que a audiência não era das mais altas e o anime não alavancou a venda do mangá, portanto não seria renovado.
Outra leitura do final: os animes de ação terminam em um grande clímax, seguido por um ou dois capítulos de calmaria, “Medaka Box” mais uma vez subverteu esse clichê e terminou num anticlímax. Ao assistir os dois últimos episódios fiquei furioso ao ver que ele não acabava, duas semanas depois me dei conta o quão genial era aquele final - um final sem final, não em aberto, mas absurdo e subvertido como a obra em si.

Conclusão

Obras muito inovadoras e desruptivas tendem a ter pouca popularidade de início tomando ares de cult com o passar do tempo, é assim com Medaka enquanto grandes sucessos desaparecem com o tempo nossa heroína de cabelo azul fica mais popular. Uma prova disso é sua presença como personagem jogável no game “J Star Victory Vs”. Para Play Station.
Lançado para comemorar o aniversário de 45 anos da Shonen Jump o jogo traz quase todas as personagens da editora em personagens jogáveis ou de apoio. Medaka é uma das poucas personagens femininas jogáveis, possuindo duas personagens de seu maná/anime no superando em número obras como “Cavaleiros do Zodíaco”, “To Love Ru!” e “D-Grey Man” e igualando-se a “Samurai X”.


“Medaka Box” foi publicado na Shonen Jump entre Maio de 2009 e Abril de 2013 e possui duas temporadas de anime produzida pela Gainax (estúdio de Evangelion) ambas de 2012. É um manga/anime para pessoas dispostas a degustar uma obra diferente e pensar no que estão vendo. 

Um comentário:

"Os Deuses Mortos" Sete Anos

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...