Oito Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

sábado, 7 de maio de 2016

Explicando o Final de Evangelion

Dando sequência aos posts especiais de aniversário do Blog vou falar sobre “Neon Genesis Evangelion”, em especial seu final, que após vinte anos segue incompreendido tendo sido substituído por dois filmes – nada contra, afinal quanto mais Evangelion melhor. Aqui mostrarei toda a beleza e genialidade por detrás dos últimos capítulos da série.
Em todas as mídias existem criações que mudam a maneira como ela se constitui e não é exagero nenhum dizer que “Evangelion” mudou a forma de se fazer animes, influenciou outros profissionais ao redor do mundo, em outros campos da arte. O exemplo mais recente deu-se com “Circulo de Fogo”. Ficando apenas na superfície “Transformers” só existe porque o estúdio não conseguiu os divreitos de Eva – ainda bem, alguém consegue imaginar essa obra nas mão canastronas de Michael Bay?
Evangelion foi o primeiro anime a se assumir um produto direto aos fãs brincando com vários clichês dos animes, personagens típicos e algumas piadas voltadas diretamente aos fãs de animes e criou o termo Fan Service (serviço para os fãs) só por isso mereceria seu lugar na história. Felizmente a coisa foi além.
“Neon genesis Evangelion” entrou no ar na TV Tokyo no dia 24 de Outubro de 1995 dando início a um fenômeno de público com apenas 26 episódios e um orçamento apertado “Evangelion” escreveu se
nome em uma lista seleta, suas personagens femininas principais – Rei Ayanami e Asuka Langlei Soryu foram eleitas dois anos consecutivos as melhores personagens de animes no Japão respectivamente, seu enredo provoca discussões até hoje e o estúdio Gainax passou de uma produtora anônima para referência mundial.
Quem nunca se encantou com os expressivos olhos vermelhos de Rei? Duas vezes eleita a melhor personagem de um anime em sua época e até hoje uma das melhores – se não a melhor personagem de todos os tempos? “Evangelion” segue uma estratégia arriscada, mas que deu certo ele se perverte ao longo de seus capítulos. Nos primeiros episódios temos a impressão de estar vendo mais um anime como qualquer outro, exceção feita a alguns momentos inseridos meticulosamente (a aparição da Rei no primeiro episódio, os momentos de silêncio de Shinji), alguns episódios são aqueles genéricos mostrando a determinação e o heroísmo das personagens, comuns a todos os animes. Caímos como patinhos.
Lá pela metade do anime pequenas questões referentes a trama e principalmente a psique de suas personagens vão aflorando até se apropriarem da trama e logo o enredo passa ao segundo plano e acompanhamos o enlouquecimento de todas as personagens. É nesse clima de “o sonho acabou” que Evangelion responde às perguntas, pela linguagem da loucura.

O Nascimento de Evangelion

Para entender o final de alguma coisa obrigatoriamente temos que voltar nossos olhos para seu começo.
Estamos no começo da década de 1990, Hideaki Anno, uma cria do estúdio Ghibli, é acometido por uma depressão muito grave, enquanto tentava se recuperar Anno submete-se ao tratamento psicanalítico, é graças a teoria de Sigmund Freud que Hideaki superou sua doença e escreveu Evangelion, uma tentativa de passar a limpo suas angustias.
Por que a psicanálise? A psicanálise tem por objetivo promover o autoconhecimento em seus pacientes, não de forma leviana como pode-se imaginar, mas um conhecimento profundo: partindo-se do princípio que todas as representações possíveis e imaginadas existentes na linguagem estão presentes em nós como um Eu em potencial. Em outras palavras tudo aquilo que vemos nos outros estamos, na verdade, vendo em nós e quando não nos conhecemos pagamos a conta. No caso de Anno foi o surgimento de sua doença e poderia ter sido sua vida, se não se tratasse a tempo.
Veja “Evangelion” qual a temática do anime? Alguém mais apressado ou mais superficial diria “é um anime de robô gigante” a temática do anime é a mesma que provocou a depressão em seu criador o abandono – todas as personagens foram abandonadas por alguém, nenhuma delas conseguiu superar esse abandono e foram levando sua vida com um sorriso falso no rosto, enquanto tentavam ignorar sua dor essa os consumia até os episódios finais onde tudo desaba.
Shinji: após a morte de sua mãe foi abandonado pelo pai que gera dúvidas em quem assiste ao anime: Gendo esqueceu que amou seu filho ou nunca o amou de verdade sempre o enxergando como um rival. Shinji cresce repleto de culpa, tendo a certeza de que não merece ser amado (seus pais o abandonaram).
Misato: Seu pai vivia para o trabalho fazendo com que sua mãe e ela sofressem, estando sempre ausente o pesquisador a leva em uma missão, a mesma que presenciou o surgimento do primeiro anjo, seu pai a salva sacrificando sua vida. Desde então Misato sente-se culpada e sozinha.
Asuka: Concebida para ser a filha perfeita viu sua família se desfazer, seu pai abandona sua mãe (que enlouquece após experiências com o EVA) e troca sua filha por uma boneca de pano. Asuka cresce abandonada e frustrada, tendo a certeza de que falhou em ser a criança perfeita, caso contrario por que seria abandonada?
Rei: Foi criada artificialmente para o benefício de Gendo, apenas um receptáculo de uma alma falsa criada a imagem de seua falecida esposa, mãe de Shinji, cujo objetivo é fundir Gendo a Unidade um permitindo que esse reconfigurasse o mundo a sua vontade, voltar a viver com sua amada.
Gendo: Sempre foi um delinquente, briguento e violento era na verdade uma criança até Yui encontra-lo e se apaixonar, a garota cuida dele como uma mãe cuida de uma criança, com o nascimento de Shinji Gendo é obrigado a ceder seu lugar, com a morte de Yui ele muda.
Percebam os temas comuns em cada personagem: abandono e culpa, troque abandono por solidão, misture com uma culpa devastadora e acrescente a desesperança vista no Shinji, ele apenas vive temos o nascimento de uma depressão. Todas as personagens são representações de Hideaki Anno.
Alguns episódios fazem uma homenagem a psicanálise como a “fase oral”: o primeiro vínculo que a criança estrutura com o mundo é construído a partir de sua mãe que o ama e o autentifica como seu filho, enquanto que o “complexo de Édipo” funciona como a interdição dessa mãe por parte do pai obriga a criança a “ir para o mundo” é seu primeiro passo na direção adulta, também é a primeira perca irreparável pela qual passamos.
Ao assistir ao anime esses temas ficam presentes em toda a história: Shinji compara Rei a sua mãe; Misato escolhe homens iguais ao seu pai; Asuka odeia Shinji e Rei por serem passivos e sem personalidade (tal qual a boneca que ela repudia e tenta ser para conseguir o amor de sua mãe); Misato cria uma família artificial que só poderia dar errado.
Depois que Shinji se ve obrigado a atacar seu amigo Toji ele decide abandonar a NERV, logo outro anjo ataca e a Unidade 01 não se move, ficando claro que essa tem vontade própria, a vontade de Yui (mão de Shinji e esposa de Gendo) em desespero o comandante Ikari conversa com sua esposa, a alma dessa mostra o rosto de Shinji ao seu marido. É ai que Gendo percebe que ele não é o mais amado por sua mulher, sua indiferença pelo filho chega às raias do ódio.
 Voltando a trama e seus clichês é possível enxergar por detrás de uma história simples uma centena de analogias, assim como no método psicanalítico, onde cada palavra traz um oceano de representações. O que seriam os anjos se não nós mesmos, os filhos de Deus? Que tal nossa consciência? Avassaladora e punitiva a qual origina todas as culpas e angustias. Pensem bem porque chamar os invasores de anjos e dar a eles nomes hebraicos de anjos?
E a Nerv? Cujo simbulo é a folha de Adão e Eva; o diretor da Nerv Gendo Ikari é acusado de ter matado sua esposa em um experimento e abandonado seu filho Shinji. Quatorze anos depois Gendo chama seu filho para o mesmo experimento. Temos não só o abandono mas o conflito de toda criança ao disputar o amor de um progenitor com o outro. A esse processo natural Freud chamou de Complexo de Édipo.


Entenda o Final de Evangelion 

Pensando apenas na série clássica existem alguns desmembramentos começando pelos dois primeiros filmes “Death & Rebirth” (morte e renascimento) exibido primeiramente em 15 de Março de 1997 basicamente um resumo da série focando nos personagens principais e “The End of Evangelion” (O Fim de Evangelion) estreando em 19 de Julho de 1997 – quem assistiu ao primeiro filme e guardou a entrada pode entrar de graça no segundo.
Os dois últimos episódios – 25 e 26 – exibiram o projeto de instrumentalidade humana pelo ponto de vista de Shinji o que faz muito sentido pois a série é sobre seu crescimento pessoal – lembrem-se toda a trama está lá só para fazer pano de fundo. Porém muitos fãs não entenderam forçando a Gainax a criar “The End of Evangelion” o filme recria os dois últimos episódios em terceira pessoa, vemos o que acontece de fora para dentro.
Com o fim dos anjos a SEELE invade a NERV, despreparados são todos presas fáceis. Menos Gendo que estava esperando por isso e quer usar Rei para seus propósitos, recriar um novo mundo onde sua esposa estivesse viva.
O projeto de instrumentalidade é a recriação da espécie humana. Vamos lá a SEELE quer devolver a espécie humana a uma espécie de útero onde renasceriam como outra raça. Mais uma vez temos uma interpretação psicanalítica, dessa vez da escola inglesa de psicanálise, o útero é uma analogia (portanto não entendam de forma literal) a um local protegido, os homens da SEELE procuram estar onde nenhum mal possa lhes atingir, mais um paralelo com o abandono – eles buscam um lugar de eterno acalento, sem dor e sofrimento. Tudo que o Shinji busca no começo da Anime.
Gendo criou a Rei, com base em Lilith e em sua esposa, para que ela desse a ele a capacidade para recriar a espécie humana, o comandante Ikari não liga para ninguém, exceto a única pessoa que amou e o amou em troca Yui Ikari, sua falecida esposa, Gendo quer reencontra-la e reviver seus momentos mais prazerosos. Um tema clássico da teoria de Sigmund Freud chamado “Princípio do Prazer” basicamente o desejo de permanecer em um local simbólico de prazer perpétuo, o princípio do prazer é contrastado pelo princípio da realidade, o qual move nosso mundo, é desencadeado após o complexo de Édipo, as proibições impostas por nossa cultura diminuem a possibilidade de prazer impondo a frustração, essa acompanha a angustia e a culpa, sentimentos recorrentes e comuns a todos os seres humanos, mas que se amplificam em doenças neuróticas, como a depressão.
Rei opta por dar o poder de recriar o mundo e a espécie humana a Shinji, esse explora as duas possibilidades o útero e o princípio do prazer, optando pelo princípio da realidade e voltando ao mundo que conhece. Quem assistiu ao anime viu a cena final onde Shinji foi aplaudido. Para escolher esse mundo foi necessário muita coragem, mais do que isso Shinji escolheu pela vida. Nossa vida é permeada pela angustia e pela culpa aceitar que esses sentimentos existem e assim conseguir lidar com eles, para cada um de nós a angustia e a culpa se manifestam de forma diferente, o objetivo da psicanálise é ajudar a cada um a conhecer os gatilhos que tornam esses sentimentos insuportáveis os evitando com antecedência. Foi o que Hideaki Anno aprendeu a duras penas, após quase tentar suicídio devido a depressão e foi o que ele tentou passar aos fãs de Evangelion.  
Os dois últimos episódios são a representação de um tratamento psicanalítico, neles Shinji começa a perceber que algumas ideias tidas como verdades absolutas eram falsas, Shinji sempre teve certeza de que ele seria sozinho, por isso não se aproximava de ninguém, o levando a ficar sozinho. O rapaz não percebe essa dinâmica, ele apenas ter certeza que estará sozinho sempre.
Outra descoberta é perceber que pode ser amado,
Cena Final: os aplausos incompreendidos
a morte de sua mãe não destruiu sua capacidade de amar e ser amado de volta, tão pouco foi sua culpa, ele percebe que o passado se foi, sua influência é apenas fantasmática (tem apenas o efeito que ele acredita ter) a cada descoberta vê-se uma rachadura até a tela ficar branca, Shinji surgir no meio das personagens e ser aplaudido, segue uma dedicatória as crianças do mudo e um agradecimento aos pais.
O que foi isso? Shinji teve o direito a reestruturar o mundo a sua vontade, após visualizar um mundo “perfeito” percebeu que essa impossibilidade não é a única via de felicidade, ele aceitou crescer, o que isso significa? Varia para cada um, mas em via geral é acatar as proibições da cultura, se responsabilizar por seus atos e ir colhendo os louros da felicidade que se faz nos momentos vividos e não como uma meta, uma mentira perigosa que Evangelion desmente, enquanto todas as personagens correm atrás da felicidade essa fica cada vez mais longe, já quando apenas vive-se o momento a felicidade se faz presente.

Depois dessas considerações que tal assistir novamente o anime, dessa vez com outros olhos e ver o que você tira dele.

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"Os Deuses Mortos" Oito Anos

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