segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os vampiros no Cinema: Aqueles que chegam com a noite

Não tenho dados oficiais, mas aposto o que quiserem que os vampiros são as criaturas mais exploradas pelo cinema: rivalizando com os zumbis em número, porém muito mais versáteis que os esfomeados decrépitos.
Entre muitas encarnações os chupadores da noite se mostram cruéis, portadores de uma dualidade sensualidade/morte, atormentados por seus desejos, conscientes de sua natureza ou bestas-feras. A imaginação é o limite.
Desde seus primórdios os vampiros são um misto de ameaça, sedução e romantismo clássico, muito diferente deste falso romantismo da saga crepúsculo, Drácula é um romance gótico ondo o romantismo instaura-se no saudosismo e pela aproximação da morte, já Crepúsculo é um conto mórmon sobre qualquer outra coisa menos um vampiro. Vamos combinar: vampiros que não bebem Sangue são Highlanders com dentes grandes.
Até onde sei a primeira história de vampiros a ser publicada foi o conto Carmilla de Sheridan le Fanou sobre uma vampiresa descendente de uma família aristocrata da Alemanhã que ataca mulheres com uma peculiaridade - ao invés de atacar pescoço Carmilla mordiscava os seios de suas vítimas. A moça das trevas foi transposta para o cinema pelo estúdio Hammer entre as décadas de 60-70.
A história do cinema mostra como os vampiros vem sendo retratados a primeira aparição de um vampiro no cinemão foi em Nosferatu de 1922, uma filmagem não autorizada de Drácula o vampiro surge como ser híbrido entre morcego e homem, Nosferato é apresentado com vil porém digno de pena, amaldiçoado por um amor eterno por sua dama morta, agora reencarnada. Apesar de ainda ser assustador o vampiro gera mais pena do que horror.
O conflito de Nosferatu foi explorado em A Sombra do Vampiro ambientado durante as filmagens do filme alemão, onde o vampiro foi interpretado por um vampiro. Decadente, com poucas memórias de seu passado glorioso a criatura, interpretado por Willem Dafoe, é asquerosa assemelha-se a um rato e acaba subjugado pelo diretor – vivido por John Malkovich – que abusa da fragilidade de seu “ator”.
Nosferatu
Em 1931 a Universal lança a primeira versão oficial de Drácula interpretado por Bela Lugosi - o ator Húngaro dá vida a um vampiro assustador, porém estilizado com fraque, capa de ópera e gel no cabelo.  A interpretação de Bela é tão eficiente que ainda assusta nos dias de hoje. Um filme brilhante, por falta de palavra melhor.
Antes de prosseguirmos é necessário que se faça uma correção histórica. Muitos acreditam que Lugosi foi o primeiro a usar a capa, porém a mesma era usada nos teatros para representar a transformação em morcego, por ser uma tradição popular e não escrita fica quase impossível precisar quem e quando usou a capa pela primeira vez.
O Drácula de Lugosi era humano, porém desprovido de sentimentos, uma analogia maniqueista onde ele representa o mal e os humanos o bem, até mesmo pela época não existe o meio termo. Temos outra ideia interessante no subtexto. O mal é sedutor, mas instigante. Todos no filme sentem que tem algo de errado com Drácula, mas não conseguem dizer não.
Porém o melhor interprete de Drácula, ou pelo menos o mais fiel a personagem criada por Stoker foi Christopher Lee - o ator que mais interpretou o vampiro somava ao seu talento o porte aristocrata e o rosto marcante. Lee viveu Drácula mais cruel do cinema gerando a repulsa descrita no livro, ele não é nem um pouco agradavel ou sedutor, mesmo querendo ser, ai temos um distanciamento da obra escrita.
Bela Lugosi
O estúdio Hammer recriou os monstros clássicos no cinema em uma época que Hollywood passava por um vazio criativo. É desta época Carmilla a Vampira de Karstein e Luxúria de Vampiros duas das produções terríficas e sensuais. Enquanto o primeiro filmo lembra muito Dracula com a bela sugadora hospedada em um casarão o segundo possui identidade própria inserindo um drama romântico que ao passo em que se afasta da obra literária prende a atenção do público. Ambos foram lançados em DVD nas bancas de jornais, quem conseguir achar terá dois belos filmes em sua coleção.
Na década de 80 os vampiros tornaram-se pops, trocando os castelos pelas vizinhanças do subúrbio americano; saem donzelas indefesas e viajantes perdidos, entram os adolescentes. É dessa época cult A Hora do Espanto onde um rapaz fanático por filmes de terror da Hammer acredita que seu novo vizinho é um Vampiro após flagra-lo se alimentando de uma prostituta. O vampirão não perdoa começa a ameaça-lo para deixa-lo em paz. O que uma pessoa normal faria? Tentaria conviver com um vampiro sem enlouquecer, o que o rapaz faz? Chama a polícia!
Desacreditado pela polícia, taxado de louco pela namorada e de estranho pela mãe o jovem encontra
A Hora do Espanto
um caçador de vampiros, que nada mais é do que um ator que intrepreta um caçador de vampiros nos filmes que assiste. A Hora do Espanto é uma diversão de primeira que homenageia os filmes de vampiro das décadas de 1960 e 1970 feito para esse público, que explodiu ganhando uma sequência muito boa e um remake horroroso.
Os anos oitenta trouxeram outros títulos menos interessantes, mas bons no geral,  como superestimado "Garotos Perdidos"; o divertido "Vamp" com vampiras stripers e "Inocente Mordida" de John Landis (diretor de Um Lobisomem Americano em Londres) e a gatinha francesa Anne Parillaud (Nikita) como vampireza, embora "Inocente Mordida" seja de 92 ele segue a mesma linha terrir, sobre uma criatura da noite que se alimenta de mafiosos, até transformar um deles por acidente.
Na contramão veio o ótimo Martin de George Romero (mais conhecido por seus filmes de zumbis) aqui rapaz com problemas mentais acredita ser vampiro e mata mulheres por quem sente tesão. O alívio cômico fica por conta do tio com quem Martin mora, que o trata como um vampiro real, o que também é trágico pois impede qualquer melhora do rapaz. Trágico e repleto de analogias sobre o preconceito.   
Em 1990 tentou-se devolver a seriedade aos seres das trevas com o ótimo Drácula de Bram Stoker dirigido por Francis Ford Coppola - embora pouco fiel ao livro está pérola bebe diretamente de Nosferatu ao mostra um vampiro sofredor preso no passado em um presente sem sentido e um futuro sem perspectivas. O verdadeiro romantismo.
Nesta mesma linha temos outra obra de referência
Drácula de Bram Stoker
Entrevista com o Vampiro de Neil Jordan - adaptação do romance de Anne Rice sobre o vampiro Louis atormentado por sua vida eterna. Ao manter sua consciência o vampiro vive entediado e culpado pelas vidas que tira, a maldição que o consome e o relógio parado sua vida a um jornalista. Na mesma linha temos o ótimo sul-coreano "Sede de Sangue" sobre um padre que se oferece como voluntário para tratar uma doença e recebe o Sangue de um vampiro. Dividido entre a consciência cristã e seus instintos o padre sucumbe a paixão por sua cunhada gradativamente vai se afundando no remorso.
Por falar em vampiros atormentados devo citar Miyu - a vampiresa ninfeta, presa eternamente no corpo der uma menina de 13 anos Miyu divide-se entre sentir pena dos humanos (por sua autodestrutividade) e ódio (por seu preconceito) eternamente sozinha ela elabora amizades que tendem a ser exterminada com o tempo.

Independente da época, forma de retratação e mídia o beijo do vampiro continua evocando medo e desejo, a satisfação vampiresca, através da boca, nos lembra de nossos próprios desejos sexuais, por que outro motivo as figuras mais icônicas seriam tão sensuais e erotisadas? Os vampiros são a sombra do humano, eles representam aspectos que desejamos ocultar ou que tememos olhar diretamente, por isso nos fascinamos. Podemos ser sem estar sendo.

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