Anos de Os Deuses Mortos

VIII Oito Anos de Os Deuses Mortos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A Piada Mortal

Diferente de outras obras imortais dos comics A Piada Mortal não é uma mini série, nem uma realidade paralela e tão pouco uma tentativa de redefinir personagens. É só mais uma história e digo "só" sem demérito. 
Diferente de outros trabalhos de Alan Moore esse aqui ele foi convencido a escrever, não era uma ideia original. Diferente de O que aconteceu ao homem de aço? em que Moore pediu o projeto ou Watchmen, em que ele elaborou o conceito antes de começar. A Piada Mortal  foi ideia de terceiros.
Muitos não lhe dão o devido respeito, a história não figura entre as melhores obras de Moore, opiniões divergem, outros a põe em uma das melhores histórias do Batman, ganhando menção no game Injustice. 
Como outros trabalhos de Moore a trama começa com uma pergunta, um questionamento antigo que não quer calar, aos poucos essa pergunta vai tomando espaço e culmina na angústia da certeza/incerteza. O não saber que paralisa e impõe um destino as personagens. Dá para dizer que A piada mortal é sobre o destino.


O Enredo

Aviso logo, a partir daqui teremos spoilers então se você não leu e não quiser saber o que acontece pare agora sua leitura e volte após ter apreciado o quadrinho. Ainda aqui? Muito bem, continuemos no próximo parágrafo.
A narrativa começa em uma noite chuvosa Batman se dirige ao Arkhan, o comissário Gordon está a sua espera com alguns guaras apreensivos. Demora para percebemos que o morcego não foi convocado, não existe nenhuma fuga, nenhuma rebelião, nenhum preso insatisfeito. Batman foi voluntariamente falar com o Coringa. Esse identificado em sua cela como "desconhecido".
Batman fica sozinho com seu antagonista e revela uma pergunta que o vem atormentando: "O que vai acontecer conosco no fim. Vamos acabar matando
um ao outro?". O coringa permanece jogando cartas, um deboche silencioso ou uma tortura psicológica? Nada disso, trata-se de um farsante. O Coringa havia fugido.
Em um parque abandonado, ou que parece estar, o Coringa compra a propriedade (comprar é modo de falar) ele também está pensativo, rememoriando seu passado de homem comum, antes do palhaço existir havia um palhaço, um comediante sem graça e fracassado.
Dentre uma das polêmicas de Moore revelar o passado do Coringa está entre as maiores. O Coringa se lembra do que era antes, um homem comum que sonhava em ser comediante. Ele abandonou um bom emprego e partiu em busca de seus sonhos e nunca foi perdoado por isso.
Vivendo na miséria, com uma esposa grávida, a única pessoa gentil com ele. Os demais o olham como um fracassado. Desesperado por dinheiro esse comediante aceita participar de um assalto vestido como capuz vermelho. Nos preparativos para o assalto sua esposa morre, seu mundo acaba e ninguém lhe é solidário: os policiais que comunicam o ocorrido são grossos ao darem a notícia "Ela morreu senhor" sem uma palavra amiga ou um olhar de conforto; os criminosos o obrigam a participar do assalto, ameaçando sua vida.
Tudo dá errado Batman aparece e o confunde com o capuz vermelho, assustado o pobre homem pula em um rio contaminado pela industria química e se transforma fisicamente, na cena mais emblemática dessa HQ.
De volta ao presente o Coringa está pensativo, sua dúvida virou uma certeza angustiante. Qualquer um pode ficar louco e uma vida feliz é impossível. Dai executa seu plano - invade a casa do Comissário Gordon, atira em sua filha e o sequestra.
Barbara fica paraplégica, o pior viria depois. Coringa a despiu e fotografou, a narrativa dá a entender que ele a estuprou, mas em nenhum momento é dito. Seu grande ato de maldade viria depois. 
De volta ao parque Coringa despe o Comissário Gordon, o coloca em um trem fantasma e ao invés de exibir monstros mostra as fotos de sua filha nua. Após o passeio o exibe para aberrações de circo em um texto brilhante sobre a farsa da normalidade e do cotidiano.
Claro que Batman aparece, salva Gordon e derrota o Coringa. Parecia um fim comum, sim parecia, quem conhece a obra de Moore sabe que esse é um autor que não se conforma com finais clichês. Batman tem sua conversa com o Coringa, tenta lhe dar uma alternativa, uma esperança, oferece ajuda. Então o palhaço do crime conta sua piada, a única que faz Batman rir, seguida pela cena final em que parece que o morcego mata seu rival em meio a risos.


Entendendo A Piada Mortal

As obras de Moore não são apenas para serem lidas, também devem ser interpretadas e costumam deixar um gosto amargo na boca. Eu disse que essa história fala sobre destino, mas o que é o destino?
Longe de algo místico (ou outras bobagens exotéricas) o destino é algo em que se acredita, é tido como uma certeza absoluta e por isso passa a acontecer. Dependendo da maneiro como você se apresenta e como as pessoas a sua volta o tratam uma ideia passa a ser verdade, ela é comprada. Em geral o destino é severo e a única maneira de lidar com ele é se conhecendo. por isso Batman e Coringa estão preocupados, eles não se conhecem, percebem que podem ter um final trágico, mas não sabem como impedir.
Apesar de se chamar Batman: A Piada Mortal, o protagonista é o Coringa. Atormentado pelo passado de fracassos, incapaz de seguir carreira no que ama, de sustentar sua família e retribuir o amor a sua esposa que tanto o ama ele teve o que chamou de "um dia ruim" - sua vida normal inexistiu.
Moore levanta uma pergunta: O Coringa é louco ou precisa ser louco? Ele é essa coisa ensandecida e incontrolável ou os fantasmas do passado se impõem de tal forma que ele precisa enlouquecer para aliviar a dor. Em sua primeira aparição vemos um semblante melancólico no palhaço, algo pouco comum a personagem.
Na trama o Coringa é desconhecido, ninguém sabe de seu passado, é como se o maior vilão dos comics (incluindo Marvel, DC e qualquer outra editora) não pudesse ter um passado tão medíocre, um fracasso total, digno de desprezo e pena que foi confundido com um criminoso. 
Em meio a lembranças o Coringa arquiteta um plano, ou melhor tenta acalmar sua memória - e ele ficou louco ao perder tudo e ver que o otimismo, seus
ideais, o amor e a bondade existentes se perderam, dando lugar a indiferença. Seu nundo tornou-se cinza e o desespero o levou a loucura, basta repetir a fórmula.
É mais ou menos assim: o ser humano é frágil, seu mundo é uma peça de cristal que pode rachar a qualquer momento. A verdadeira natureza humana é a loucura!
O palhaço do crime deixa Barbara Gordon paraplégica, tortura Gordon com imagens da filha nua, ferida e abusada, apresenta o comissário como um acidente infeliz do ideal humano: ""Senhoras e senhores! Vocês já o conhecem pelas manchetes dos jornais! Agora tremam ao ver com seus próprios olhos o mais raro e trágico dos mistérios da natureza! Apresento o homem comum (...) observem o seu repugnante senso de humanidade, a disforme consciência social e o asqueroso otimismo. O mais repulsivo de tudo são suas frágeis e inúteis noções de ordem e sanidade. Se for submetido a muita pressão... ele quebra! Então como ele faz para viver? (...) a triste resposta é 'não muito bem'".
Embora enlouquecido o discurso do Coringa possui muita verdade, quando Nietzsche disse: "Não existem fenômenos morais, mas interpretação moral dos fenômenos" ele se referia as mesmas instâncias do Coringa. "Senso de humanidade", "Consciência social" e "otimismo" são valores morais, eles não existem enquanto si, são invenções. Mentiras necessárias para que o ser humano exista enquanto humano.
O que é um palhaço se não uma caricatura de homem? A caricatura escancara uma falha, no caso do Coringa uma farsa: todos os valores humanos são mentirosos, são alucinações coletivas. Não exixte bondade, assim como não existem maldade. Essa é a piada mortal.
Em determinado momento o Coringa diz ao Batman que eles são iguais, na linguagem do palhaço os dois tiveram "um dia ruim", algo que destruiu essa farsa, no Caso de Batman seu mundo ficou eternamente cinza, um prisioneiro de sua culpa. O mesmo acontece com o Coringa, o que muda é a maneira deles lidarem com sua dor. O Coringa proclamou que os valores humanos são farsas; Batman grita "vou faze-los reais". Ambos são atormentados.
Sua igualdade se faz no final: Gordon pede para o Batman prender o Coringa conforme a lei e provar que ele está errado.  O cruzado diz que vai tentar (e de fato o quer). Após nocautear o vilão finalmente revela sua angústia, eles acabarão se matando.
O homem-morcego se abre: "Podíamos trabalhar juntos. Eu poderia reabilitar você. Não precisa ficar alienado de novo. Não precisa ficar sozinho. Não precisamos nos matar". Mais uma vez vemos um Coringa humano, pensativo, ele conta uma piada, que mais parece uma farsa:
"Dois loucos decidem fugir de um hospício e decidiram pular do telhado para um prédio vizinho, o primeiro salta, mas o segundo fica com medo. O que saltou disse 'estou com minha lanterna aqui. Vou acende-la pelo vão dos prédios e você atravessa pelo facho de luz'. O outro responde 'Você acha que eu estou louco? E se você apagar enquanto eu estiver no meio do caminho?".
Os dois dão risada, em meio aos isos Batman estrangula o Coringa, os carros da polícia se aproximam. Fim, o que é esse final? Seira o Coringa afirmando que não confia no morcego? Que não confia em si mesmo? Muito simples, que tal uma triste profesia aquele que conhece as trevas não pode voltar a luz?
Uma vez que a farsa foi escancarada a máscara não pode ser recolocada, no fundo os dois sabem disso, ambos olharam muito fundo dentro do abismo, não há volta. Salvar o Coringa significaria salvar a si mesmo, poder dormir sem a culpa pela morte dos pais, a piada mortal sussurra: "è impossível" e Batman o mata, por revelar a verdade. Na frente da polícia, onde não há volta.
"Não combata monstros sob pena de se tornar um deles, se você contempla o abismo, o abismo a ti também contempla" (Nietzsche).  

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