quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Os 55 Anos de Laranja Mecânica

Poucas coisas são unânimes nesse mundo e eu concordo com Nelson Rodrigues que disse: "toda unanimidade é burra", acrescentaria "... e perigosa", mas dentro do cinema há um consenso da qualidade: a importância do filme Laranja Mecânica e de seu diretor, Stanley Kubrick. Ambos apontados como membros do panteão cinematográfico.
O filme, contestado e violento para os padrões da época pouco envelheceu, em parte por sua ambientação futurista, mas principalmente por suas provocações: expor o humano sem lentes destorcidas ou trucagens. Pois é Laranja Mecânica segue sendo um dos melhores filmes já feitos e tema de discussão em cursos de psicologia, psicanálise, psiquiatria e sociologia. Para citar só alguns, antes do filme vamos ao início.

O Contexto Social


Laranja mecânica é inicialmente um livro escrito por Anthony Burgess na década de 1970 como crítica a uma ideia do governo inglês. Preocupados com a criminalidade e a ineficiência dos presídios o parlamento britânico visa importar uma técnica soviética: Moldar o comportamento de criminosos a partir de estímulos.
Quem viu o filme já entendeu, quem não viu a coisa funciona assim: baseada em teorias da psicologia comportamental (também conhecida como behaviorismo), onde estuda-se o comportamento baseado em causa e efeito, tenta-se inibir um comportamento com apresentando um estímulo positivo (uma recompensa) ou um estímulo negativo (um castigo), tudo isso a grosso modo.
Em determinado momento do livro Alex, um delinquente juvenil e protagonista da obra, é exposto a filmes sobre violência, antes lhe foi injetado uma solução que provoca náuseas. Ao assistir os filmes passando mal a sensação é associada a violência e Alex passa a ser incapaz de agredir qualquer pessoa.
Eis que Alex, agora um cidadão modelo, se torna incapaz de conviver em sociedade, essa o rejeita e agride. Burgess demonstra que a violência não está no indivíduo, mas no humano e em segundo plano na sociedade que pede a paz e a destruição em iguais proporções.
O livro fez barulho, junto a outros notórios pensadores da sociedade britânica de psicanálise e intelectuais o projeto foi engavetado,o parlamento viu-se obrigado a pensar elementos mais capazes de promover justiça.


O Filme

Quando vivo Kubrick foi quase uma marca, seu nome nos créditos arrastava multidões, devido ao seu talento único e inovação. Os críticos não gostavam, ele foi um revolucionário e hoje é enaltecido e
endeusado pelos mesmos que o chamavam de enganador.
Laranja Mecânica foi um sucesso e como todo sucesso teve interpretações distorcidas, grupos punks usaram o filme como inspiração e uma onda de violência se arrastou pela Inglaterra. Kubrick pediu para que o filme fosse recolhido e só reexibido nos cinemas após sua morte, o estúdio (Warner Bros) acatou imediatamente.
O filme (e o livro) contam a história de Alex, líder de uma gangue que passa seus dias dormindo e as noites se drogando, roubando, estuprando e matando - a primeira meia hora mostra seus atos, incluindo uma notória cena onde ele e seus "amigos" invadem a casa de um escritor, estupram sua esposa cantando sing in the rain forçando-o a assistir.
Em seguida temos o encontro de Alex com seu assistente social designado pelo estado, o homem limita-se a ameaçar o rapaz questionar os motivo de suas atitudes e por fim agredindo-o. Seus pais ignoram sua rotina, tomam remédios para dormir e acreditam que o garoto faz bicos a noite, sem jamais perguntar.
O governo no filme é violento e repressor, usa a polícia para silenciar enquanto testa seu método comportamental; ao mesmo tempo a oposição progressista (representada pelo escritor) não tem escrúpulos e usa as pessoas a seu favor. Em uma cena o escritos socialista tenta levar Alex ao suicídio
A ainda polêmica cena do estupro
para usar sua morte como arma contra o governo.

Nessa guerra pelo poder os jovens não tem alternativa, são largados a sua sorte sem atenção, cuidado ou alguém que se disponha a ouvi-los. Como resultado acabam recorrendo a raiva, única sensação íntima e agridem a sociedade, que por si só agride e se agride.
Uma das ideias defendidas pela obra é que a violência é uma característica inata ao homem e não algo adquirido por um comportamento ou lição, é impossível aniquila-la e só encarando esse verdade é que podemos começar a fazer alguma coisa.
Os médicos e psicólogos que usam o método de modulação comportamental (chamado método ludovico) são sádicos, sentem prazer em mostrar-se superiores aos policiais e em infringir dor ao Alex, não vou dizer mais, se quiserem saber assistam ao filme, ele é muito fácil de se achar.

Descascando a Laranja

Segundo o autor Laranja Mecânica é um paradoxo ele coloca em paralelo algo natural e alo sintético, o impossível que se faz. Representa a dualidade humana, o amor e o ódio estão coexistentes em cada um de nós, a história da humanidade trás muitos exemplos de genocídios em pró de um ideal.
Ao anularem a violência de Alex anula sua identidade, representado  no filme pela música música. Alex sente náuseas pela única coisa genuína que ama a música de Beethoven, Kubrick usa a melodia para mostrar uma pessoa anulada, um zumbi, alguém sem vontade que torna-se o cristão ideal.
Em uma cena onde está jantando macarrão e bebendo vinho o diretor muda propositadamente a
quantidade de comida e bebida em seu prato e copo para confundir o público. Esse filme não tenta explicar ou dar soluções fáceis, ele revela um problema não cuidado e mostra que problemas não cuidados tendem a crescer e ficarem cada vez piores.
Por isso mesmo segue sendo um filme atual, a onda de violência nos presídios brasileiros não é tão diferente assim do mostrado no filme, são décadas de descaso e quando explode tenta-se uma solução superficial para abafar o problema e não resolve-lo.

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