Os Deuses Mortos - Nove Anos

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sábado, 17 de março de 2018

Desejo de Matar

No começo do mês estreou o remake de Desejo de Matar com Bruce Willis, filme que não me importei de ver, talvez o faça uma vez que não sou fã de remakes, muito pelo contrário os rejeito e admito um certo preconceito. O remake precisa ser muito bom para me conquistar e na maioria das vezes ficam abaixo do original.
Se os remakes tem algo de bom é reviver a experiência com a obra original e esse é o foco do post de hoje Desejo de Matar de 1974, um grande filme que ficou meio esquecido, sofrendo pela baixa qualidade de suas continuações e por integrar um subgênero em baixa o cinema policial.


Um Filme Atual

Charles Bronson vive Paul Kersey, um arquiteto (e veterano da guerra da Coréia) que vive em Nova Iorque e volta de férias do Havaí. Ao chegar em sua cidade é recebido pelos colegas de trabalho com a pergunta: "como é voltar ao inferno?".
Na época Nova Iorque era uma cidade violenta, em níveis próximos aos do nordeste brasileiro e Rio de Janeiro, onde muito se discutia o direito ao porte de arma e leis mais enérgicas para melhorar a vida das pessoas.
Kersey é um pacifista, se dizendo contra o uso de armas e favorável a medidas mais humanitárias de combate a violência - exatamente o debate que vivemos hoje no Brasil.
Logo após voltar para Nova Iorque sua esposa e filha
são seguidas por criminosos que invadem sua casa, estupram as duas, matam sua esposa, deixando sua filha catatônica (isso não é spoiler, está na sinopse do filme).
Paul Kersey desaba, busca por justiça na polícia, que não consegue descobrir a identidade dos criminosos;
assiste sua filha definhar em hospitais psiquiátricos, recebe pelo correio as fotos da viagem feliz ao Havaí. Sem saber como lidar com a raiva e a impotência o homem volta ao trabalho.
Desencorajado pela polícia, que diz ser muito difícil encontrar os criminosos e vendo toda sua crença no sistema e nos direitos humanos sendo abalados pela dor Kersey aceita um trabalho no Arizona.
Tentando levar uma vida normal ele vai construir um condomínio fechado na cidade de Tucson, onde faz amizade com o dono das terras. Esse diz que as taxas de criminalidade no Arizona são baixíssimas. O motivo? Todas as pessoas andam armadas.
Kesey encontra o paraíso, um lugar seguro onde todos se cumprimentam e ninguém desconfia de seus vizinhos. Diferente da sombria e suja Nova Iorque Tucson é verde e arejada com montanhas e o céu azul. Nova Iorque é mostrada constantemente cinza, suja e claustrofóbica.
Ao se despedir de seu contratante Kersey recebe uma arma de presente e a leva para Nova Iorque, é lá que seus instintos de vingador começam a brotar.


Análise com Spoilers


Desejo de Matar foi injustamente acusado de defender o vigilantismo, vendo o filme mais de uma vez não encontrei uma defesa propriamente dita mas sim considerações sobre o ser humano.
Kersey começa a sair de casa em busca de criminosos, ele se passa por uma vítima em potencial, atrai os trombadões e os mata. 
Nada de grandes criminosos ou declarar guerra ao crime organizado. O arquitete mata assaltantes, batedores de carteira e criminosos ocasionais. 
Paul não se incomoda em atirar pelas costas ou surpreender bandidos, ao contrário ele quer limpar as ruas o que começa a surgir efeito:
Não demora e as pessoas sacam que existe um vigilante, o crime diminui e a população apoia o matador de bandidos. 
A polêmica e brilhante cena final

Uma sequência mostra o chefe de polícia conversando com o detetive encarregado dizendo que o vigilante não deve ser preso e nem morto evitando uma comoção ou a criação de um mártir.
Independente da ideologia que você tenha ou de qualquer partidarismo se alguém começasse a matar bandidos e a criminalidade caísse, como você acha que a grande massa iria reagir? Não estou pedindo teorias que justifiquem essa reação, apenas uma opinião sincera. É muito provável que as pessoas fiquem do lado do vigilante, mesmo sem saber quem ele é ou o por que mata.
Com o desenvolvimento do filme Kersey vai enlouquecendo, ele se vê em um western: em uma cena Paul desafia um criminoso para um duelo, o mandando sacar uma arma; em outra marca o por do sol como compromisso.
A própria solução encontrada pela polícia vem dos westerns - o vigilante deve ser encontrado e expulso da cidade, assim suas ações cessariam e a população iria pensar que ele fora morto pelos bandidos ou desistiu.
A cena final é ouro marco do cinema, ela não estava no roteiro e o diretor Michael Winner fez Bronson filma-la - na cena Kesey chega em sua nova cidade, ele vê um grupo de arruaceiros e aponta seu dedo (simulando um revólver) para eles. 


Construção de Personagem (com pequenos spoilers)


Desejo de Matar é uma aula de como construir uma personagem verossímil: Paul Kersey se apresenta como um pacifista, ele diz não acreditar em arma de fogo, mesmo após a morte de sua esposa o discurso continua.
Sabemos também que Kersey serviu o exército durante  Guerra da Coréia e que seu pai fora morto em um acidente de caça.
O que temos ai: alguém que cresceu em uma determinada cultura e foi reprimindo suas experiências. Kersey tem uma vida boa, sua esposa o ama; sua filha está noiva de um ótimo rapaz; ele é um arquiteto de sucesso e tem bons amigos.
Ao perder sua família sua vida desmorona lentamente, são situações que vão acontecendo e o fazem ver a realidade com outros olhos: a polícia mostra-se incapaz de protege-lo, a morte de sua esposa é esquecida pela mídia e pessoas ao redor, discursos de direitos humanos e proteção de meliante tornam-se vazios para ele.
O desenvolvimento é lento, o que não torna Desejo de Matar um filme lento. Ao contrário é impossível desgrudar os olhos da tela querendo saber o que vai acontecer. Um dos defeitos do cinema contemporâneo é ser muito rápido, não dá tempo para construir personagens (sim, existem exceções).
Kersey vai perdendo sua humanidade, ele passa a viver para caçar criminosos. 
Um fato importante no filme é ele nunca ter encontrado os assassinos de sua esposa, ele não buscava vingança, estava apenas vivendo o que foi reprimido (cuidado com discursos de censura em pró de um mundo melhor).


Um Filme Polêmico

Desejo de Matar foi um sucesso estrondoso e gerou sua dose de polêmica. A sociedade americana discutia fervorosamente um combate a violência mais enérgico, houveram casos de linchamentos, onde pessoas inocentes foram confundidas com ladrões.
Integrantes de grupos de linchadores diziam se inspirar em Kersey.
Brian Garfield, o autor do livro que inspirou Desejo de Matar, disse várias vezes não gostar do filme, da direção e nem da escalação de Bronson. Justiça seja feita o filme é bem diferente do livro.
A produção do filme foi tumultuada desde o início ninguém o queria filmar devido ao tema: O vigilantismo. 
Dino De Laurentits bancou o projeto que custou US$ 3 milhões e rendeu US$ 22 milhões, lançando Bronson ao status de astro.
A cena do estupro

Charles Bronson não foi a primeira opção. 
Outra cena improvisada foi o estupro sofrido pela esposa e filha de Kesey. Winner quis filmar em detalhes para comover o público e justificar a raiva sentida pela personagem, era necessário que o público odiasse os criminosos e simpatizassem com a personagem de Bronson.
Com o sucesso vieram as críticas, Desejo de Matar foi acusado de incitar a violência e a justiça com as próprias mãos.
Durante a exibição do filme o público aplaudia todas as vezes que Kersey matava um bandido (algo parecido com Tropa de Elite). O público enxergou na tela uma resposta simbólica (e um alívio) para a violência desmedida.
Somente anos depois é que Nova Iorque conseguiu controlar seus índices de violência com o programa Tolerância Zero, onde todas as leis existentes passaram a ser aplicadas sem conversa ou jeitinho. 
Um estuprador e um ciclista que pedalasse acima da velocidade eram advertidos e punidos severamente, de acordo com o código penal, algo que provoca pesadelos nos mais progressistas.
Assista ao original, você não vai se arrepender, é um excelente drama que mostra a decadência de uma pessoa comum, nas palavras do Coringa (em A Piada Mortal) "basta um dia ruim para você enlouquecer".

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